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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ela cortou os pulsos.



Ela cortou os pulsos.
A loucura venceu, o medo foi maior.

Ela tinha me falado que não aguentava mais viver.
Que sentia que sua vida tinha escorrido pelos seus dedos.
Cinquenta e poucos anos. Não tinha construído nada.
Passou a vida cuidando do pai doente. Deixou de estudar.
Nunca teve cabeça pra aprender.
Nascida no Mundo Bucólico, nunca teve tratamento adequado para suas dores da alma.
Pobre, filha de pais sem instrução,
E quem teria paciência com seus destrambelhamentos?
Sua família virou-lhe a cara.
Seus animais não!

Ela pegava na rua os mais desvalidos.
Os mancos, o fracos, os cegos, os doentes.
Pegava os torturados, os queimados com água quente, os atropelados.
Enxergava suas dores, tratava suas feridas, acalentava seus medos.
E de solidão em solidão, morava com vinte cachorros e com oito gatos.
Chamava-os de filhos.
Todos tinham nomes, e um pratinho de angu com carcaça de galinha pra comer.
Uma família de terráqueos!

No entanto ela sentia falta de sua família.
E se algo lhe acontecesse o que seria de seus bichos?
Sentia o peso do mundo em suas costas.
Sendo responsável por tantas vidas ficava apavorada.
Começou a sentir pena de sí mesma. Achou-se indigna da felicidade.
Focou sua visão para os problemas e esqueceu que tudo tem solução.
Olhando apenas os fracassos podia justificar suas angústias.
O dinheiro era curto e não conseguia imaginar seus bichinhos dormindo com fome.
Morava em casa alugada, num local afastado pois seu dinheiro não dava pra grandes luxos.
Tinha medo de tudo.
E os perversos farejam o medo e se alimentam da produção de mais terror.
O medo sempre atrai maldades.
Jogavam pedra no seu telhado.
Gritavam na sua janela.
Ameaçavam envenenar seus animais.

Ela cortou os pulsos.
O sangue inundou sua casa humilde.
Caiu na sala.
Seus filhos não entenderam nada, continuaram a balançar os rabinhos.
Pensaram que era mais uma brincadeira.
Lamberam seu rosto. Latiram.
Mas não perceberam a gravidade do que acontecia.
Ela cortou os pulsos.
E quase deixou este mundo.

domingo, 21 de agosto de 2011

PASSA O REDONDO!


Não é fácil se fazer entender.
E não falo nem de uma pré-disposição à boa linguística, com uma correta exposição dos sentimentos.
Falo do basicão mesmo.
Do dizer “quero” e se fazer entendida a vontade de querer.

Sou nordestina.
E cada dia eu tenho descoberto vícios de linguagens minhas e de outras regiões do Brasil.
Divirto-me com isso.
E nem quero entrar no mérito do certo-e-errado.
Na língua coloquial isso nem existe, apesar de observar certos erros crassos.
Mas quem passou 30 anos da vida falando que o rio tinha “imundado” (em vez de inundado), não pode ter um chilique diante da maioria dessas escorregadelas.

É verdade, estou acostumada ao achincalhamento do meu sotaque ao falar a sílaba do T+I. Tenho algumas observações a fazer sobre este assunto.
Como boa nordestina, recuso-me a pronunciar o T+I com um “tchi”. E a resposta rápida que uso nesta zombação é: se T+I pronuncia-se tchi, T+U é tchu.... e aquele bichinho da floresta é um TCHATCHU e a comida mineira seria TCHUTCHU de feijão.
E, acreditem!, esta explanação resolve realmente a questão.

Mas não quero falar do sotaque, e sim da dificuldade de entendimento propriamente dita.
Eu não sei se as novas gerações fazem de propósito com a finalidade de localizar as pessoas mais antigas, ou é moda ficar mudando os nomes das coisas.
O fato é que outro dia entrei numa loja para comprar uma anágua.
SEGUNDO AURÉLIO: Anágua - Substantivo feminino. 1. Saia, usada sob o vestido ou outra saia, em geral mais curta que estes; saia de baixo.
Foi aquela risadagem.
As mocinhas do atendimento não faziam a menor ideia do que se tratava, e eu fiquei tentando explicar o que era uma anágua, no que uma delas retrucou:
- Ela quer uma segunda-pele!
SEGUNDA-PELE?
Pois é, querido leitor com mais de 40 anos, anágua chama-se agora segunda pele!
O antigo colante, que era um tipo de maiô usado como blusa, virou BODY.
SEGUNDO AURÉLIO: colante. Adjetivo de dois gêneros. 3. Diz-se da roupa muito chegada ao corpo, muito apertada ou justa.
E tem mais...
O nosso antigo Bolo de Bacia virou CUPCAKE!
A calça cigarrete é agora SKINNY.

E se não bastasse estas diferenças, tem ainda os regionalismos.
Se você não for pernambucano vai estranhar alguém dizer que:
atacou o botão”.
SEGUNDO AURÉLIO: Atacar. Verbo transitivo direto. 1. Prender com ataca ou atacador. 2. Meter os botões, ou os colchetes, nas casas, para fechar (veste, etc.).
mangou de alguém
SEGUNDO AURÉLIO: Mangar. Verbo transitivo indireto. 1. Caçoar, afetando seriedade. 2. V. zombar.
ser pirangueiro
SEGUNDO AURÉLIO: Pirangueiro. Adjetivo. 1. Reles, desprezível, ridículo 3. Indivíduo aproveitador da boa-fé alheia.
E por aí a coisa anda meio manca e com muita dificuldade de se fazer entender.

Isso deve justificar um acontecido com uma colega de trabalho que estava dando carona a um amigo quando foi assaltada.
O delinquente colocou o revólver na cabeça do rapaz e gritou:
- PASSA O REDONDO!
O cara então foi desabotoando a calça para dar... o “redondo”.
Levou uma coronhada no quengo.
-TÁ ME ESTRANHANDO, SEU FILHO DA PUTA? EU QUERO A PORRA DO RELÓGIO!!!!!
(...)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O MÉDICO E O MONSTRO.


Estava aqui pensando com meus botões...
A vida tem cada piada de mal gosto!!!!!!

Ele é um dos homens com o coração maior que conheço.
Bom! Verdadeiramente bom.
Nunca teve muitos bens, apesar de ser médico e ter épocas de ganhar muito dinheiro.
Mas sempre dividiu.
Sempre ajudou.
Nunca foi vaidoso, nunca foi soberbo.
Na casa dele sempre tinha lugar pra mais um.
Sempre tinha a possibilidade de mais um prato a mesa, mais um colchão no chão, mais um presente na árvore de Natal.
Tudo sempre foi pra todos e não só para o seu conforto pessoal, e os sacrifícios que fez nem foram dolorosos, pois a sua personalidade era de amor.
Fez porque amava. Então não eram sacrifícios, eram apenas atitudes.
Quantas vezes ele acordou duas horas da manhã para abrir a porta pra mim? Inúmeras!
Nunca fez cara feia, nunca reclamou.
Eu era jovem e era natural que me divertisse, assim deveria pensar ele.
Nunca foi hipócrita, nunca fez pose de santo, e isso o fazia ainda mais especial.
Ele nem se achava bom, não conseguia perceber o grande exemplo de força e de caráter que me transmitia.
Era como se a sua vida fosse feita para servir.
Ele só dormia realmente quando todos estavam em casa, sob seu teto, sob seus cuidados.
Tinha defeitos, claro! Afinal ele é humano....
Ele era briguento.
Sempre foi!
Explosivo também.
Mas suas explosões eram curtas.
Seus rompantes rápidos.
Totalmente contornáveis.
Ninguém tinha raiva, pois todos sabiam do seu grande coração, e sua bondade era tão gigantesca que possuía créditos pra muitas malcriações.

Hoje ele está doente.
Infelizmente sua doença traz para a superfície o seu pior.
Não é o esquecimento que desestabiliza as pessoas a sua volta, mas o ódio por tudo e por todos que vemos em seus olhos.
Uma raiva incontrolável.
Uma agressividade tão gigantesca quanto era sua bondade.
Os palavrões que ele eventualmente falava no passado viraram seu único vocabulário.
A esposa fiel, amiga, companheira de uma vida inteira virou puta, quenga, vagabunda.
Seus genros viraram cornos.
O mundo é uma bosta.
As pessoas são filhas da puta.
Todas safadas.
Nada presta.
Ele tem vontade de esmurrar o vento. De quebrar a casa.
De fazer tudo e todos desaparecerem.
Às vezes eu vejo, no fundo de seus olhos, a tristeza do bom homem, aprisionado num corpo doente, refém de uma raiva desgovernada.
Sinto o esforço que ele faz pra controlar a ira.
Em vão.
Literalmente ele vive o drama do médico e do monstro.
Sem antídoto.
Sem cura.
Sem solução.

Não sei nem o que sentir diante disto.
Uma tristeza ao ver a impotência do ser humano.
Uma imensa saudade dele quando doce, bom, amigo....
Um vazio.
Do que ele foi só vemos flashes rápidos.
O resto resgatamos da nossa memória quando relembramos todo amor e compaixão vividos num tempo que parece cada vez mais distante.

É.... a vida, as vezes, é uma piada de mal gosto.
Sem saber, Stevenson descreveu o mal de Alzheimer.