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terça-feira, 19 de outubro de 2010

NOSSAS DUAS CARAS

"Todas as coisas humanas têm dois aspectos, à maneira dos Silenos de Alcibíades, que tinham duas caras completamente opostas. Por isso é que, muitas vezes, o que à primeira vista parece ser a morte, na realidade, observado com atenção, é a vida. E assim, muitas vezes, o que parece ser a vida é a morte; o que parece belo é disforme; o que parece rico é pobre; o que parece infame é glorioso; o que parece douto é ignorante; o que parece robusto é fraco; o que parece nobre é ignóbil; o que parece alegre é triste; o que parece favorável é contrário; o que parece amigo é inimigo; o que parece salutar é nocivo; em suma, virado o Sileno, logo muda a cena."
Erasmo de Rotterdam, em Elogio da Loucura


Esperar coerência de quem, por natureza, é contradição, constitui um erro cheio de frustrações.
Nem mesmo podemos responder por nós. Quem vai saber exatamente o que faria em tal ou qual evento futuro?
Todas as vezes que abri a minha boca para dizer que não faria tal coisa, fiz!
"Na tortura toda carne se contrai".
Temos uma pequena noção do que somos. Mas somos muito mais (ou menos) do que cremos. E é bem difícil ter a noção exata do conceito do EU.
Já me envolvi em situações que pensei ser boas, e se tornaram desastrosas.
Já chorei por viver outras, e depois tive saudade e raiva por não ter aproveitado mais.
Com o passar dos anos percebemos que o que fica são as rugas e nossa imagem no espelho. Isso quando ainda enxergamos!
E depois de tudo, nós mesmo temos que aceitar que seremos esquecidos.
Hoje eu sei que mais importante do que nossas contradições e erros.... é nossa boa intenção.
Isso porque com ela nos tornamos felizes, enquanto podemos ser.
Digo e repito, fazer o bem faz bem.
Isso é fato. Isso é Física!
E o BEM é um carinho tranquilo, é a energia do desejo de que o outro seja feliz.
Algo bem subjetivo, mas que cada ser humano sabe o que é... quando aprende a amar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Maria, Maria


Um dia perguntei a minha mãe como era perder uma mãe.
Olhávamos o mar, na varanda de nosso apartamento.
E ela respondeu: você vai sofrer, você vai chorar, mas depois vai seguir a sua vida...
E continuamos a olhar o mar.
As palavras eram desnecessárias.
Minha mãe estava perdendo a luta contra um câncer, mas nunca perdeu a força de ser Maria.
Mulher que nasce com a marca da vida em suas entranhas.
Maria, Maria é um dom.
E ela tinha razão.

Então hoje uma mulher veio falar comigo, no meu trabalho.
Parecia uma freira vista de longe. Vestia uma túnica, e cobria seus cabelos com um manto branco. Tinha o olhar doce e uma voz calma.
Entrou na minha sala, olhou nos meus olhos e disse:
“Vim pegar a minha menininha.”
Meu coração encheu-se de carinho.
Quem seria a menininha?
Respondi que eu não podia dar a menininha dela, e que talvez, em outro dia, ela a encontrasse.
A sua Maria foi soterrada pelas magoas? Pelo abandono? Pela dor? Pela doença?
A menininha dela talvez não estivesse tão longe... talvez estivesse em seu coração e não se tornou mulher, não se tornou Maria.
Tantas Marias mortas pelo medo, pela solidão, pelo preconceito, pela força bruta da maldade.
Tantas Marias infantilizadas, que não falam, miam.
Tantas Marias perdidas, vivendo vidas em novelas.

Hoje sei que...
É preciso ter manha...
É preciso ter graça...
É preciso ter sonho... sempre...

Sempre, e sempre.
E não há escolha.
Não há volta.
A vida não espera.
Chorei, e ainda choro, sofri, e ainda sofro, mas sigo a minha vida, pois a marca da Maria que trago no corpo aprendeu a misturar a dor e a alegria.

Pois quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida.